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domingo, 24 de agosto de 2014

UMA MENTE BRILHANTE



Preconceito é algo complicado de se lidar. Em alguns casos, mudar um ponto de vista é quase como mudar o seu próprio jeito de ser. É como pedir pra uma águia sentir medo de altura, ou como esperar que um demônio se sinta culpado por se deleitar com o som de gritos alheios e carne sendo dilacerada, com um belo pôr-do-sol de sangue de fundo (obrigado, Hellblazer e Garth Ennis. Eu sempre soube que conseguiria encaixar essa paráfrase em algum lugar...).

Eu tenho um par de chifres, cara. Me dá um desconto...


Não quero entrar no assunto de preconceito com opção sexual, com cor de pele (lembre-se: não é preconceito racial. A raça continua a mesma, independente da cor) ou com crença religiosa (ou a falta dela), visto que tais assuntos tendem a gerar um tom dramático que simplesmente não combina com o foco do blog (além de recair em temas que, honestamente, já encheram o meu saquinho).
E, como faz um bom tempo que eu não o atualizo, gostaria de me valer de uma definição de dicionário (todos que acompanham o Mais Um sabem da minha paixão não tão secreta por livros com a pretensão de explicar a tudo e a todos governar. Deve ser por isso que eu estou fazendo faculdade de biologia, uma ciência nada pretensiosa que tem a “simples” missão de explicar a vida em si):

(pré+conceito) sm 1 Conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados.



O excelente dicionário Michaellis traz outros significados para esse verbete. Mas o que citei acima é mais que suficiente para expressar o que eu quero dizer.

Eu nunca fui muito fã dos desenhos da Disney. Vim assistir a Hércules depois de velho, quando já não tinha nem mais graça. Os musicais sempre me afastaram destas animações, mesmo que a ótima qualidade visual dos desenhos exercesse efeito oposto.
Aliás, acho que eu nunca fui muito fã de animações hollywoodianas em geral, visto que outras como A Era do Gelo ou Os Incríveis demoraram bastante pra conseguir chamar um pouco da minha atenção.

"Humph! O que vai ser da minha reputação de cowboy se me virem com um urso cor-de-rosa"?


O lado bom de aproveitar algumas coisas com certo atraso é que podemos fazê-lo por uma perspectiva mais amadurecida do que na idade que foi planejada para o público-alvo de algo. E nesse ponto, posso dizer que comecei a quebrar meus preconceitos com as animações com o pé direito, com Toy Story (uma animação muitíssimo menosprezada e enaltecida pelos motivos errados).

Bom, o fato é que, assim como os posts de Breaking Bad e Splice, este aqui tem a modesta missão de indicar uma obra do cinema que eu acho que merece um pouco da atenção de quem acompanha o blog. E antes que meu escasso público cometa harakiri de tanta curiosidade e expectativa, a estrela da vez a brilhar nesta constelação chamada Mais Um Blog de Games Animações é Megamind, da Dreamworks.


UMA MENTE BRILHANTE (SQN)

"Querida, vamos mandá-lo pra um planeta onde não confundam ele com o Brainiac"


Megamind, ou Megamente (sim, eu assisti a essa animação hoje, na Temperatura Máxima. Não é coincidência. E sim, eu pretendo comprar o DVD original pra tirar o gosto ruim da dublagem brasileira e todos aqueles nomes substitutos e cafonas que estragam o clima do desenho original), é uma animação em computação gráfica que conta a história de dois personagens icônicos das histórias em quadrinhos. O exato começo do enredo eu ficarei devendo, visto que quando liguei meu holotubo de teleapreciação espacial em 3D o filme já tinha começado. Mas pelo que eu entendi, o enredo se foca em dois personagens que vieram de outro planeta em orbes espaciais distintos (não, não é impressão sua. Toda a animação está cheia de referências diretas ao Super-Homem e seus filmes antigos. Se duvida, preste um pouco mais de atenção no detalhe peculiar do queixo do “pai espacial” e, se conseguir somar um mais um, entenderá a piada): um teve a sorte de cair em uma residência da burguesia e contar com o melhor que a vida pode oferecer (tanto na questão do dinheiro quanto na supremacia genética). O outro personagem, um simpático bebê cabeçudo de grandes olhos verdes, deu o azar de cair na porta de um presídio e foi criado... digamos... com certos valores de certo e errado um pouco distantes do senso comum. A natureza foi sábia em não trocar os lugares, mais uma vez.
Claro que eu não vou gastar um resto de domingo meu contando cada detalhe do enredo do filme, até porque o post é pra indicar, não pra dar spoiler. Mas o que eu gostaria de salientar é como nós podemos nos surpreender quando paramos pra dar atenção a algo que julgávamos ser totalmente indigno de nosso tempo.

Não dá pra negar: ele é chato mas é bonitão


Todos sabem que eu adoro escrever. A extensão de alguns posts do meu blog jamais me deixaria mentir. E é por isso mesmo que eu dou tanto valor a um bom enredo quando eu encontro um.
Veja bem, não estou dizendo que Megamind é a reinvenção da roda quando o assunto é tirar sarro com super-heróis. O tema é clichê desde Os Incríveis (mesmo que a real intenção ali fosse plagiar, não satirizar) e Kickass. O que estou ressaltando, mais uma vez, é a FORMA como isso é feito na aventura.

O enredo de Megamind consegue ser muito bom, com um humor inteligente claramente feito não só para crianças e com um ótimo toque de suspense e originalidade que vão te prender do começo do “desenho” ao fim. É interessante, com diversas referências (inteligentes e engraçadas) sobre o mundo dos quadrinhos. Além de todas essas qualidades, Megamind passa uma mensagem educativa de forma nada tediosa sobre como é importante você não abandonar as suas raízes, ou como você deve fazer justamente isso quando nada mais estiver dando certo na sua vida.

A teoria do bom selvagem sendo posta à prova


Hoje em dia é muito difícil aparecer conteúdo de boa qualidade, voltado a um nicho de mercado específico e que cumpra o seu papel com personalidade e estilo próprios. Numa fase da cultura humana em que as coisas precisam ser fabricadas em larga escala (e isso inclui o próprio consumo de cultura, como games, filmes e quadrinhos podem muito bem atestar), é de encher os olhos ver uma animação voltada às crianças (mesmo só podendo ser aproveitada em sua plenitude por aqueles que já passaram dessa fase) que não as trata como retardadas e, de quebra, adianta a seus pequenos universos temas relevantes a sua puberdade (como rejeição, relacionamentos e valorização pessoal).

Mau até os ossos? Nada que vitamina B não resolva


MEGAMIND ESTÁ VALENDO A COMPRA? A resposta é óbvia: NÃO, pois ainda não comprei o DVD original (pegadinha do Malandro. Ié, ié). Mas pretendo fazer isso em breve para prestigiar os criadores desse excelente desenho que me fez soltar diversas gargalhadas durante os seus breves minutos. E, pra encerrar o texto, deixo os leitores com uma pergunta que já vem acompanhada da resposta: sabe como um roteirista tem a certeza de que conseguiu escrever uma coisa de qualidade voltada ao público infantil? É quando ele, com a exata mesma obra, consegue arrancar sinceras gargalhadas de um marmanjo que passou já dos seus trinta anos de idade.


Au Revoir!